Saturday, February 13, 2010

A Barca do Sol

Ah o carnaval!
Pessoas suadas, gente bronzeada, confusões nas ruas, multidões de bebados, drogados, fazendo putarias a céu aberto. Que maravilha era ver a alegria dos foliões pulsando e contaminando a todos gerando essa energia colorida de emoção e magia.
Quem me conhece sabe que em dias normais durante os carnavais eu compraria o mais poderoso entorpecente e me trancaria em meu quarto arrancando as espinhas do meu cérebro, mas por força dos meus amigos que sempre me incentivam a sair desse cubículo escuro e fechado , quase caustrofóbico que é a minha vida, resolveram tentar me ajudar esse ano a não ser uma completa derrota.
Eu também queria sentir a alegria das pessoas. Ser, viver sorrir, agir como um débil mental e ficar bebado ouvindo cantigos repetitivos, esbarrando em todo mundo, sendo empurrado, imprensado e pisoteado pelos bombados de 5 metros de altura que tratam as mulheres como um pedaço de acém que você compra no açougue. O pior é que elas gostam disso.
Pensei que minha má sorte terminaria momentaneamente ao saber que duas amigas do Rio Grande do Sul viriam passar o carnaval no rio. Eram meninas legais, umas exessões nesse mundo deprimente onde te chamam de nem e falam pobrema.
E pensei mesmo em me mudar, tentar me divertir com meus amigos Caio e Paulo, afinal eles mereciam isso de tanto me aturar.
Quanto as meninas, no final uma delas acabou ficando no sul pra resolver alguns problemas sérios.
Essa foi a primeira decepção da noite pois a natalia que ficou no sul era uma pessoa incrível.
Inteligente, forte, amiga e sobretudo muito bonita.
Cinquenta por cento do nosso coração ficou preso junto a ela , não por pena e sim por saudade, mas eu ainda estava focado em agir comos os seres humanos normais. Queria ir para um bloco como gente normal. Beber até cair como gente normal, rir de coisas idiotas como gente normal, ficar ensopado de suor fedendo a mijo como gente normal.
Marcamos com a outra Natália do sul no bar da ladeira na Lapa. Esta natália tinha uma aurea linda , querida e de personalidade forte. Descobri conversando pela internet gostava de musica e de fumar um. Tanto que fui me arriscar por um baseado na favela em sua homenagem. Meus amigos diziam que talvez ela gostasse de mim , me davam força pra perguntar isso a ela como gente normal ,mas eu como sempre, me sentia aquele biscoito quebrado da embalagem que você abre e ele se despedaça e cai no chão. Não acreditava muito. Seria praticamente um sonho se ela gostasse de mim, mas como todos os sonhos já imaginava que não passaria de ... mais um sonho perdido, uma ilusão passageira que passa rasgando o teu peito, até você desmaiar com a dor lacinante. Se perguntando:
- Porra, porque eu ainda tento?
Mas eu tentei, infelizmente.
Marcaram comigo as duas e meia da tarde e como habitual ninguém chegou na hora. Fiquei lá , sentado na escada do bar esparando, junto a alguns mendigos que brigavam por um bujãozinho de caninha da roça. Eu também com uma bebida entre os braços os aguardava. Aquela ladeira tinha história pra mim, nunca gostei muito de ficar ali , mas o meu amigo Caio sempre me levava, e naquela tarde de calor em especial eu estava perdido a pensamentos esperançosos. Seria essa a minha chance de sair desse vazio total exalando esse cheiro terroso de terra? Será que pelo menos poderia me lembrar como é sentir algo agradável? Desconfiava que não, mas tinha esperanças. O primeiro a chegar foi o Paulo , meia hora atrasado e por mais triste e por mais que a vida me faltasse, esse cara resgatava em mim sentimentos que ninguém conseguia. Enquanto um tornava tudo complexo ele me mostrava como tudo poderia ser tão simples, tão fácil. Adorava a coregem dele , a iniciativa e o fato de que podia até tornar até um bloco de pedra mais alegre. Sentia até uma ponta de inveja , mas a menina do sul ainda povoava meus pensamentos. Ele chegou e eu sorri. Como a muito tempo não sorria, sinceramente. Me pagou uma cerveja e me forneceu palavras de incentivo. Sempre mostrando o quanto éramos babacas de não aceitar a vida como ela é , deixar as inquietações de lado e agir. Era o que faltava pra mim. Resolvi ainda esperando a menina e o caio que por mais que a insegurança me comesse vorazmente eu ia pelo menos tentar. Mostrar pra mim mesmo que não era um covarde, um bundão. Até porque esse cara tão forte, tão mais esperto e conhecedor das nuances de viver a vida do que eu, me achava uma boa pessoa e também um amigo valioso. Não sei porque, mas cada um tem seus carmas a pagar.
A menina finalmente chegou , fui ficando vermelho, com vergonha , mas a abracei com a força mediante a alegria que senti ao ve-la. Tomamos mais cervas afim de esperar o Caio. Ela estava linda de vestido. Com um olhar belo como uma noite em alto mar. Era fácil eu me perder, e de fato , queria isso . Alguma coisa que mexesse comigo e me fizesse pelo menos sentir vida.
O Paulo já cuidava da vodka com um carinho que só ele sabe dar, Natalia por sua vez trazia dois latões de cerveja e me deu um . Esperamos mais um tempo e o Caio chegou. O cidadão lento mais rápido que eu conheço. A pessoa mais inteligente que conhecia, mas que assim como eu a vida tava abandonando aos poucos. Tinhamos que dar a volta por cima.
Depois de um tempo, já com a trupe formada, rumamos até o Carmelitas. Eu tentava conversar timidamente com a Natalia, o Caio conversava com o Paulo e o Paulo conversava com a vodka. De vez em quando tirava um gole também, afinal a porra do calor fritava meu cérebro , meus sentimentos eram confusos e me faziam mais estarnho que o comum. A vida ao lado do Paulo e do Caio era boa , já conhecia ,mas queria algo novo, pois meu caminho ia ficando cada vez mais restrito e minha vontade se estinguia junto as ladeiras de Santa Tereza. Chegamos ao bloco ,lotado repleto de bebados animados , pessoas fazendo um tipo que só fazem no carnaval. Os bombados chegando em qualquer dragão maçonico que aparecesse, e os dragões rejeitando-os de vem em vez. Afinal nesses ambientes não importa o que é e o que quer. É tudo questão de como você vai parecer para os outros na primeira vez. É um tiro só. Se errar tem que comprar mais belas , e não era fácil de encontrar, pelo menos pra mim , pois o Paulo já cansara de me provar o contrário.
Meus amigos incentivavam-me a falar com Natalia que eu estava afim dela, e no meio daquela multidão de pessoas pulando feito macacos animados, eu resolvi tentar. Disse a ela como me sentia e ela disse que ia pensar.
Após ser esmagado, me voltei a multidão e cometi um erro terrível. Fiquei tentando impressiona-la , agindo como um idiota por diversas vezes, mas não me culpava, eu não estava em mim. Tava sentindo um estranho peso no estomago e era só olhar pra ela que minha mente se dispersava.
Mas tomei coragem e fui de encontro a multidão de macacos saltantes. Depois de quatro dias a merda voltaria com mais força , mas até lá, nós macacos poderíamos viver o que quiséssemos . Acho que o que eu queria era realemnte não se-lo.
Agi como eles por volta e meia. Comentava a beleza feminina com o
Caio , angustiado e sem tato para aquilo como eu. Éramos mais parecidos nisso , mas o Caio era mais centrado, eu era mais louco. Casávamos como o sol e o fogo , sem dúvida um amigo pro resto da vida. Devíamos ter seguido o coneslhos do amigo mais sabio entre nós. O Paulo , outro amigo pra vida inteira nos ensinava a ligar o foda-se ser como a ocasião necessitasse. Qualquer coisa o alcool tava ali pra nos ajudar.
Queria lhes contar mais detalhes sobre o fenótipo do bloco, vocês devem estar curiosos, mas eu não posso. Só consigo pensar em como a aquela falsa diversão ainda me divertia. Amigos. Eles são minha única valvula de escape. As drogas são apenas ilusões, eles são reais. Fícavamos preocupados frequentemente com a Natalia pois só quem conhece e viu a playboizada em ação sabe como os bombados podem ser perigosos. Acho que ela não gostaria de ser obrigada a chupar o pau de um negão suado e rebolativo. Colocando-a entre seus braços sem deixar que tenha escapatória. Ela não viveu a realidade triste do rio, e eu só queria que realmente ela não vivesse.
Chegou ao ponto de eu esquecer meus sentimentos e apenas me empenhar em faze-la se snetir bem.
No meio da procissão, eu já estava com o saco muito mais que cheio. Queriam sair voando dali pro meu quarto e pro meu cd do Som nosso de cada dia. Snegs de biufrais pra mim. E a cada a segundo o drama, a falta de tato, a minha hipocrisia melancólica e estática me desligava do mundo. Forçando muito a barra até pra agradar meus amigos. Apertei um baseado de forma rudícula num guardanapo e ele abriu me fazendo perder toda a erva. Vi a decepção nos olhos da Natália. Afinal só tinha comprado por causa dela. Depois demos mais sorte e um rasta amigo meu apertou um verminoso pra gente, misturado com o meu numa seda de verdade. Ele era uma pessoa de verdade, e eu um arremedo de ser humano.
já pro final da noite a melancolia já me socava a cabeça de forma insuportável.
Ficava rodeando a menina como os espíritos obcessores. Caio ficava introspectivo , era um cara que você não tinha como ler. Sempre imaginei o que ele pensanva ali sozinho. Observando as coisas. Mas nunca consegui, se ele jogasse poker seria imbatível.
O Paulo era realmente fora de série. Matou a Vodka antes que pudesse pensar em beber. Alías esse dia foi um dos poucos onde viajar, sair da realidade que machuca, não era pra mim a prioridade. Fazia palhaçadas com meus amigos, ria de forma sincera, fui feliz por uns momentos. A minha onda do baseado foi das melhores. Me ajudou na sobrevida junto aos macacos alegres. Mas eu ainda queria ir embora. Ainda queria ficar sozninho e viver a única coisa que realmente me torna vivo. A ausencia.
De resto tudo bem pra nós, até que Paulo descobriu que havia sido assaltado sem saber como. A Natalia também havia perdido o celular e ai as coisas ficaram de vez insuportáveis. Paulo berrava palavrões certeiros contra o mundo e a Natália apenas concordava com ele. Ainda éramos amigos e toda alegria sincera que havia em mim. Esse pouquinho de vida que me restava dei pra eles.
Afinal mereciam. Muito mais do que eu.
Descemos a ladeira e chegamos até a lapa afim de curtir o fim da noite. O Paulo com raiva, dando socos na parede, não quis mais nos acompanhar e foi para casa.
A Natália mesmo com o ocorrido continuava linda e feliz. O Caio ainda tentava sorrir e continuava misterioso demais.
Eu?
Os segui pra onde iam , mas não estava mais alí. Havia me desligado da realidade a apenas fazia o necessário pra continuar caminhando , com o coração despedaçado, a mente sem funcionar e tentando ser bom , de vez em quando.
Viva o Carnaval! Viva a alegria do povo! E todas as outras mazelas, que reunidas nos fazem viver como palhaços. Um livro que voce compra pela capa. Um disco que só conhece pelo nome. Ninnguém escuta. Ninguém vê. E eu sou mais um. Sem importancia. Apenas caminhando na orda de zumbis. Felizes!

(Esse texto é dedicado a Natalia. Eu sei que a barra ta pesada, mas avida e essa merda mesmo. Nós tentamos , rir, chorar viver... Mas no fim , pelo menos pra mim , só valem esses pequenos momentos , onde os amigos nos retiram da privada antes de puxarem a descarga. Adoro você e até o fim da nossa querida . hipócrita e idiota festa carnavalesca, escreverei a ti. Não pra te homenagear ou faze-la sentir-se melhor. E sim porque você merece. Merece Muito mais que isso.)

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