Futebol é uma paixão idiota.
Se bem que já cheguei a pensar que toda a paixão era idiota e a passividade minha melhor amiga.
Chego ao estádio, ainda não muito cheio duas horas antes.
Encho a cara num bar barato pois os cem reais do ingresso é uma madeira no cú pra quem ganha setecentos e não vive sem comer.
Acho que antes de pagar um salário desses ao povo, deveriam investir numa tecnologia que nos fizesse digerir a ingestão de terra.
E antes de cobrar um preço desses num estádio que nós construímos , reformamos e reformamos novamente, acho que alguém deveria ser espancado.
Mas nunca haverá o destrono sem que a plebe desafie seu rei.
Mas estávamos lá eu, a cachaça, a camisa do meu time e os velhos que sabem tudo e sempre conhecem mais de futebol que você:
- Porra aquele golaço do Adamastor em 68, há garoto você devia ter visto , ele driblou três e com o ultimo zagueiro, chocou-se, deu quatro mortais e fez um gol de cú, ELE FEZ UM GOL DE CÚ.
O estádio custou mais de um bilhão e já tinha sido reformado duas vezes, estava bonito , mas não lindo.
Era bom mas não era ótimo.
Era legal mas não muito
Era como cagar pela metade e ter que cortar a merda no meio.
Eu tava entorpecido com 8 copos de cachaça. Entrei e vi meus companheiros torcedores. Não passavam de 10.000 e eu me perguntava:
- Tá faltando zero nessa conta.
Por dentro era apenas um estadio , sem a personalidade de outrora. O banheiro estava sem água, a água de garrafinha custava 10 reais e o cachorro quente 18, cachorro este, que só tinha pão e uma salsichinha do tamanho do pirú de uma estatua grega.
A torcida não vibrava mais como antes, até os fanáticos pareciam cinzas.
Eu de tanto arrependimento pelo dinheiro gasto acendi um baseado no meio da torcida dos jovens, porque acreditava que nem a PM gostaria de ir naquele meio. Fiquei perto dos instrumentistas pois ao tocarem não teriam como me agredir.
Mas eu estava errado.
Um PM batizado pela PM de Pereira sentiu o cheiro.
Veio na direção da gente , já dando cacetadas e fazendo perguntas, mas nessa eu já havia dispensado o flagrante e deixado ele lá com suas desconfianças.
Fiquei realmente puto. paguei caro e não podia beber nem fumar no estádio , não podia cagar porque o banheiro não tinha água e não podia comer, porque não era milionário.
Porra fiquei puto.
No intervalo me reuni com alguns jovens torcedores e falei pra eles que deveríamos quebrar tudo afinal, o jogo tava uma merda, o time idem, o serviço do estádio um chute na bunda.
Eles gostavam de confusão e me ajudaram. Colocamos fogos em bandeiras , muitas delas e em faixas também.
Uns 100 policiais chegaram , mas eramos 1000.
Dai a porrada comeu firme, eu não sei brigar direito então me preocupei em queimar e destruir tudo que eu pudesse, quando eles foram chegando perto, encurralando-nos em um canto eu peguei uma criança de 4 anos e joguei em cima do policial.
Ele caiu junto com a criança e foi rolando a arquibancada.
Dai nego viu que era só jogar criança que eles recuavam.
Jogamos umas 10 e eles recuaram um pouco nos dando tempo de pensar.
Fui com um jovem torcedor até a porra da lojinha de comida cara igual a um inferno e invadi mesmo, ninguém fez nada, todos com medo porque o jovem torcedor que me acompanhava era maior que qualquer homem comum , era um fenômeno.
Lá procurei logo o álcool, que logo achei , tratei de incendiar a lojinha.
Senti muito pela atendente que se queimou um pouco, mas foda-se eu não estava mais me importando , tava muito puto.
Voltamos pra arquibancada onde a porrada ainda comia solta e o pessoal ainda arremessava as crianças pra cima dos PMs, eu fiz história e fiquei orgulhoso.
Tínhamos seis garrafas de álcool ainda e continuamos queimando, o armário em forma de gente e eu.
Mas ai tive a melhor ideia de todas, se as criancinhas eram a unica forma de fazer a polícia recuar, você imagina uma criança flamejante?
Funcionou desse jeito, eu jogava o álcool e o negão acendia e arremessava. Com essa artilharia pesada a polícia não teve chance. A torcida os derrotou utilizando os mastros das bandeiras como potentes cassetetes e alguns até como punhais.
Depois disso botamos fogo, destruímos quase tudo que encontramos, choramos de contemplação.
O jogo foi cancelado, meu time punido com seis jogos sem o mando de campo, 70 PMs morreram, além de vinte e dois civis, a maioria crianças , e o estadio foi fechado por um ano para obras emergenciais, sem licitação e com dinheiro público.
Infelizmente meu amigo negão foi preso, já eu passei batido porque sou branco e filho do Dr. Adalberto Juvencio que era PM também.
Hoje em dia sem poder ver o meu time jogar novamente, já ando me reunindo com uma galera da pesada esperando que na reabertura, não obriguem a usar o filho de ninguém como bazuca novamente.